domingo, 4 de setembro de 2011

Parar de Fumar - A missão mais que impossível - Diário de uma viciada.


Gentem, estou tentando parar de fumar.
Para tanto, me inscrevi no programa anti-tabagismo do corpo de bombeiros.
Passei pela entrevista. Terei 4 reuniões semanais, com psicólogo, terapia de grupo e psiquiatra.


Dia 1 - Adesivo na alma, medicação em funcionamento.
Passei o dia ouvindo uma voz na cabeça: tá na hora de fumar, tá na hora de fumar...Cara, a cada 60 segundos, esta vozinha falava umas 50 vezes a mesma coisa! 
Sobrevivi a parte da manhã no trabalho. Mas, como nada pode ser tão ruim que não possa ser piorado, a TPM resolveu se associar ao processo de ansiedade. Chego em casa na hora do almoço e começo a ranzinzar... Estava tão ranzinza que nem eu estava me suportando, almocei em 20 minutos e para não brigar, voltei pro trabalho.
Que inferno! a parte da tarde, que usualmente tem apenas 4 horas de serviço, pareceu ter cada segundo multiplicado por três! O dia não acabava, as pessoas ficavam falando, falando, falando e eu querendo um lexotan.
Mas nem tudo foi ruim, já que, como não saí pra fumar nenhuma vez, o serviço rendeu pra cacete.Enfim, deu 4 horas da tarde! Só faltava mais uma hora de trabalho e então a primeira fissura apareceu. Leve e tranquila, mas eu tinha que sair da sala.
Peguei um lápis branco e avisei as meninas, vou fumar. Saí, munida do meu celular, com meu lápis branco na boca e passei 10 minutos, jogando o meu jogo predileto, fingindo que fumava meu lápis. 
Voltei pra sala e consegui terminar o expediente.
Mas ainda não tinha terminado o dia. E aquela voz estridente e insistente, falava, falava. Agora na velocidade 4! (Traduzindo, de 50 vezes por minuto, passou para 200 vezes!).
A irritação era derivada de ato simples: respirar! Por que todo mundo respira! Dá pra parar! Eu não consigo pensar, com tanta gente respirando! Socorro.
E ainda eram 17h30 minutos.
Preciso comer, beber, fazer sexo, plantar bananeira, pra esta voz parar de falar...
Não consegui silenciá-la. E a tortura seguiu.

Cheguei às 19h. Já que não tenho nada mais importante pra fazer, vou assistir a um filme, nós três...
Não sei que filme era, quem estava nele, sobre o que era... a voz não deixava eu entender.
Um pensamento acalentador se fez presente: Preciso dormir. Se eu dormir, a voz dorme também!
(Meus Deuses, estou ouvindo vozes! Isso não pode ser um bom sinal!).
Meu amado foi fazer um café. Fez, sentou e saboreou seu café. Não trouxe pra mim... e já eram 21h00.
Fui buscar meu café. Garrafa aberta. Com o coador em cima. Já haviam se passado 120 segundos da hora que o café foi feito. O café estaria gelado. Reclamei da garrafa aberta. Fui por agua no fogo para um novo café, afinal, não posso tomar café gelado. Não tem graça.
E a tão procurada briga começou. E não paravam as vozes. Mas de repente, elas se interessaram pelo diálogo, e o volume reduziu.
Chegamos quase a meia noite rapidamente.Ainda na briga. Eu acabei não fazendo o café fresco, não tomando o café frio, que pude comprovar pela mão do meu amado, que ainda estava quente o suficiente para queimar a pele. As vozes se interessaram de fato pela briga, e calaram-se. Mas nós também calamos. Ele saiu e foi-se. Disse que ia refrescar as idéias e se acalmar, pois eu havia sugado a última gota de sua paciência.
Ele saiu, as vozes dormiram. Ficamos eu, o celular e as lágrimas.
Cheguei à 1h da manhã, com meu computador e um e-mail.
Chegamos então as 2h da manhã. Eu, o celular e ele. Eu só queria saber onde ele estava. Dizer que o amava e essas coisas bobas de quem sabe que pisou na bola. 
Mas então ele diz que não voltará nesta noite... e que está ofendido e magoado.
As vozes acordaram e se interessaram. Intercalaram as frases. Entre um "tá na hora de fumar" e outro, elas diziam "ele não volta, ele não volta". Velocidade 5.
Mais magoados e 45 minutos depois, desligamos o telefone. Ao menos ele disse que voltaria pela manhã.

Fiquei entregue às vozes. Acho que no auge da insanidade, dialoguei com elas. A angústia era a nova companheira da madrugada. Achei que poderíamos jogar can-can ou quem sabe paciência.
Não. paciência não. esta eu não tinha e também não quis vir mesmo depois do meu convite.



Dia 2:
Chegamos às 6h00 da manhã. Apolo trouxe o sono na sua carruagem.
Dormi. Foram quase 100 minutos de sono ininterrupto. Dormi  até cansar. 7h40 estava de pé, (em pleno sábado!) tomando minha droga, meu banho e colando meu adesivo.
Tomei quase um litro d'agua.
As vozes demoraram pra acordar e a manhã passou tranquila.
Chegou a hora do almoço. Comprei dois marmitex. Quase não consegui comer. Então eu percebi que a manhã tinha ido embora.
Ele não tinha chegado. Então, ele foi embora. (esta foi a conclusão das vozes, que aceitei prontamente, pois pra mim, a lógica estava correta).
Mas ainda tinha a companhia de uma amiga. As vozes não se atreveriam a discursar tanto.
Chegamos as 14h. Me senti vitoriosa. sem cigarros. sem a vontade de fumar. só as vozes intermitentes e irritantes. Velocidade 8.

De repente, algo se apoderou do meu corpo. Uma vontade imensa de fumar. esta vontade preenchia cada milímetro de meu ser. cada fio de cabelo, cada poro. A angustia que me acompanhou na noite anterior, cedeu lugar ao desespero.  Era hora da segunda dose do remédio. vou tomá-lo e ele, com fé em nosso senhor salvador dos desesperados - o Deus Loki, ele irá aplacar minha alma.
Chegamos às 15h. 

E ele chegou. O desespero começou a retirar-se. O dia estava completo. As vozes estavam erradas. E eu pude respirar. Eu estava feliz.

Mas ainda ofendido, pediu para ficar consigo mesmo e seus pensamentos. 

O desespero também. Os comentários também. As conclusões também. E a angústia voltou a me visitar.
Preciso sair, respirar. Respirei. Comprei um chocolate e uma carteira de cigarros.
Todos silenciaram-se. A expectativa de saberem se eu fumaria ou não foi gigante.

Cheguei em casa. Ele perguntou se eu iria desistir do tratamento. Eu disse que não. Ainda não. Mas, se eu mudasse de idéia, queria o cigarro a mão.

Com as vozes mudas, todos os outros me acompanharam pelo longo olhar, de 10 minutos que se seguiu. e a dúvida entre a melhor escolha, chocolate ou cigarros não pode ser sanada.

Fui às compras, já eram 16h. não passava. queria me rasgar, arrancar as entranhas. vamos andar mais um pouco. vai passar. Não! Vamos voltar pra casa. Lá sim vai passar. E lá estava o protetor dos desesperados... a rir de mim. 

Com peso nas mãos, eu e meus pensamentos. Por que eu havia mesmo decidido parar de fumar? Por que não posso retirar os miomas, se continuar fumando. Se eu não retirar os miomas, não terá gravidez. Sem gravidez, não existirá Helena.

Comecei a me questionar se haveria Helena. Para ela existir, precisávamos ser dois. e eu não estava conseguindo ser um terço. Eu ainda não sabia, como não sei, o que vai acontecer amanhã. E as vozes resolveram dar suas opiniões. Fume agora! amanhã, você saberá se vai ou não existir a Helena.  Velocidade 10.

Cheguei em casa, tentei perguntar se haveria Helena. Enumerei os passos que haveriam até ela chegar. Quis saber. Pois eu disse as vozes que sim. A Helena viria. Ele diria que sim. Que seríamos 2. Mas ele não disse.

Então, resolvi fumar agora. Quando eu souber se ela vai existir eu retomo o processo. Meu amado me disse que eu desisto fácil das coisas. Eu disse que ainda não estava desistindo. Que eu precisava apenas de um cigarro. e que estava suprindo minha vontade.

Chegamos as 17h. As vozes se foram. Eu fumei um cigarro. Não me senti culpada. 
Meu corpo não mais se rasgava. Minha mente estava tranquila. Cheguei a pensar que ficaria alucinada de novo. que não resistiria às próximas horas. 

Mas passou, tudo passou.
Tivemos nosso rito, logo mais a noite. Uma das meninas fuma. E eu não quis fumar com ela.nem sentir o cheiro da fumaça. As vozes estão caladas desde as 17h. 
Cheguei sozinha, sem as vozes, os deuses, ou sensações até a meia noite de novo.

Sonho 1 - terror. um dos meus bichos vai morrer. Acordo chorando. São 3h30 da manhã.
as vozes dormem. Vou pra varanda chorar um pouco. me acalmo. volto a dormir.

Sonho 2 - estava proibida de tocar e falar com ele. Senão, ele passaria pela porta do quarto e morreria. No sonho, esbarrava nele, ao me virar na cama. ele levantou, no sonho, se vestiu e queria passar pela porta. Desesperada gritava pra ele que tinha sido sem querer. Que eu não tinha feito nada, que ele não devia passar. Tentei dizer que ele morreria, mas a voz não saiu. Pânico, terror. Quando acordo, estou de fato na porta, tentando segurá-la. Ele tentando me acordar/acalmar. Tenta abrir a porta pra buscar agua pra mim. o Terror volta. Ele sai. Estou doendo inteira com a tensão. Ele volta pro quarto, começo a relaxar. tomo a agua. mas estou com muito medo ainda. não consigo falar direito. apenas peço desculpas, (nesta hora, não sei se ainda estou no sonho ou acordada. tento dizer que foi sem querer que encostei nele, mas também digo que não queria acorda-lo). Eram 4h50 da manhã. As vozes continuam dormindo.

Quando finalmente tentamos voltar a dormir, já eram quase 5h30. Mas, eu não consegui pegar no sono direito, até as 6h30. Toda vez que eu esbarrava nele na cama, acordava assustada. 

Sonho 3 - não me lembro. Me lembro da angústia.



Dia 3

Acordei as 9h. corri para minha droga. meu banho meu adesivo.
As vozes não voltaram ainda. 
Estou apenas eu e meus pensamentos.
Nenhum pensamento obsessivo passou pela minha mente até agora. Não estou com vontade de fumar.
Não quero matar ninguém.
Estou preocupada com o terror dos sonhos. mas acho que meu subconsciente está tentando me dizer que eu estou fudida e que não vai ser fácil passar por estes 30 dias.
Mas ainda estou confiante.
Cheguei até as 11h30 sem vontade de fumar. E, já estou no dia 3.

(A minha esperança está sem cor, mas ainda assim é uma esperança).